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Uma história de sucesso

Era uma vez. Não, muitas estórias começam assim, então que tal, certa vez, não, muitas também tem este começo. Hum, então vamos, certo homem, ah isso também já tem.

Então o que escrevo?  Parece que tudo já foi escrito, vou ter certamente de plagiar alguém, bem plagio ou não, minha estória terá algo de verdadeiro, apesar de não feito parte dela. Não será algo inédito, porque quase tudo já foi dito, vivido e cheio de controvérsia e algo mais, porém segue pela vida a fora, desafiando o tempo e as inteligências que se dizem dotadas. Aquelas cujo legado não se paga. Gerações de pessoas que modificaram o mundo, sua maneira de ser e de viver. O mundo, sempre evoluiu, quando estava sob a conduta dos “Gênios” quando estava com os medíocres regrediu! Foram na forma de crises, guerras. Não vou citar datas, tenho dificuldades com as mesmas, citarei década ou décadas. Não vou citar cidades, talvez, estado e região. Peço permissão para citar apenas dois nomes: Deus e C2. Porque C2? Sei lá

Existiu uma crise, que novidade! Uma longa crise econômica que atingiu a “maioridade”, eleitoral do país, foi quase duas décadas. Ocorreu entre duas grandes guerras mundiais. Bem eu ainda não era ser vivente, ou nascido, esperei pacientemente o término da segunda guerra, para nascer, num mundo melhor, de paz e harmonia! Que utopia. Portanto me socorro das minhas aulas de história, para dizer que esta crise ocorreu na década de trinta do século passado, alias nasci nele. Não é autobiografia. Esta “pequena” crise foi chamada de “A Grande Depressão”. Ficara para traz a Primeira Grande Guerra, a extraordinária Revolução Industrial, mais longe ainda a Reforma Protestante a contra reforma, os Jesuítas e as Grandes Navegações, quando sem querer, se descobriu um continente. “Deus salve a América” A partir daí, ficou então o “Velho e o Novo Continente”. Novo só na área, nos costumes e colonizações tudo como era antes. Interesse, opressão, corrupção.

“A Grande Depressão” década de trinta, limiar da vinte, quebra da bolsa de NY “olha a bolsa aí gente”! A bolsa já era parte sustentável da economia mundial, e é aí, pós neste cenário catrastófico que eu começo; que maravilha. Esta é a estória do C2.

Interior do triangulo mineiro, um jovem pai de família, apesar da pouca comunicação da época, fora afetado com a “grande depressão” perdera o que tinha.

Menos duas coisas; sua fé inabalável em Deus e sua família. Bem, o que fazer agora? Tempos difíceis, mormente para quem era da zona rural. Chamados à época de “Caipiras Roceiros”. Conta-se que não havia dinheiro circulante, ou muito pouco, as pessoas trocavam coisas que tinham, evidentemente pelas que não tinham. Precisava sustentar sua família, que com o tempo aumentava e os recursos diminuíam.

Aprendera que Deus nos dá o sustento, e a palavra “ora ação” passou a fazer parte do dia a dia. Quais os recursos da época em termos de ferramenta?  Enxada, Facão, Foice, Machado e para os mais abastados arados de tração animal. Refiro-me aquela região. Bem de posse destas “avançadas” ferramenta, foi à luta. Mudou de lado para outro, procurando melhora que não vinha, o que vinha era mais filhos, mas sempre bem vindos, sempre nascia mais uma “coisinha boa”. O tempo foi passando, aquele homem, tocava lavoura de subsistência, em terras que não eram suas.  Sistema da época eram meeiros, ou seja, do que colhiam metade era do dono da terra.  Como isso era feito? Com o machado derrubava o mato, depois queimavam e aí plantava variedades como: milho, arroz e feijão. Naquela época não se ouviam falar de adubo, a terra de mato produzia por dois ou três anos e era tida como “cansada”. Derruba-se outra área e assim por diante. Depois do plantio vinha à colheita, como era feita? Tão trabalhosa quanto o plantio. O arroz, por exemplo, era cortado com um tipo de faca curva, chamada de “cutelo” depois ajuntado em fileiras para secar. Sobre um grande pano e uma banca de madeira inclinada, era batido para soltar da palha, depois ajuntado, ensacado e transportado ou carro de boi, ou lombo de animal. Metade do dono da terra. Feijão era arrancado com as próprias mãos, e sobre o pano era ajuntado, de posse de varas era batido até que as vagens se abrissem, o que ficava sem abrir no final do processo, era aberto com os dedos. Literalmente bater o feijão. De resto como o arroz. Milho era apanhado espiga por espiga, depois juntado e eram medidos em jacás, feitos de tiras de bambu. Um jacá dito de duas mãos comporta mais ou menos cento e vinte espigas de milho seco. Cinqüenta jacás faziam um carro de milho, medida que usada na época. Metade sempre do dono da terra. Nas entre safras, cortava lenha para a “estrada de ferro” no machado é claro.

Mas onde está o C2 já que é sua jornada! Lá está, no curral, uma criança, com uma gaiola na mão tentando pegar um canário cantador, naquele tempo podia. Conseguiu pega-lo, que alegria. Mas o inesperado aconteceu, um vizinho estava também interessado no tal, fizeram uma troca, C2 deu o canário por uma escova de dente, foi seu primeiro negocio, e o primeiro que sua mãe o fez desmanchar. Teve também seu primeiro dia se aula, como todos, era uma escola rural, onde funcionava com poucos alunos, e única professora, de primeira a quarta série, tudo na mesma salinha gentilmente cedida por um bondoso fazendeiro.

Mas aquele pai de família, de mãos calejadas, queria um futuro melhor para seus filhos, queria que freqüentassem uma escola alem da quarta série, chegou a mandar dois para a cidade, mas como não podia custear todos, por censo de justiça, os trouxe de volta. Homem trabalhador, sem profissão, mas inteligente e sem ter oportunidades. Com um mês de aula, sabia as quatro operações, calcular juros e escrever. Não se sabe como, mas aprendeu a medir um pau pela sombra do mesmo. Bem, ai resolveu mudar para uma cidade maior, ainda no triangulo, para que seus filhos tivessem a oportunidade.

Era década de cinqüenta, suicídio do presidente da república, havia nascido sua ultima filha, completava dez. lá se foi em busca de seus sonhos. E que sonhos.

Primeiro trabalho de C2 foi vender jornal, naquele tempo podia ajudar os pais no trabalho, infelizmente hoje não. Um diário daquela cidade; por volta de duas da tarde, pegava vinte jornais todos os dias, isso depois é claro de ter ido à escola, ido no bom sentido, não levado como é hoje na maioria das vezes.

A jornada de uma pessoa dá um ou mais livros, mas como é apenas um artigo, vou resumir as principais coisas que C2 viu evoluir. Os primeiros carros eram muitos simples, e coisa rara, apesar de carregarem os mesmos princípios, podemos dizer que os de hoje tem pouca coisa em comum com aqueles. Os postos de combustíveis eram raros e a gasolina e o querosene era muitas vezes comercializado em latas. A evolução foi por todo lado, na aviação, na navegação, na comunicação e processamento.

C2 foi firme à escola, assim como seus irmãos, fora do horário de aula o trabalho. O tempo foi passando, aula e trabalho, dos mais variados, até que veio o grande dia de todo estudante, vestibular, o primeiro sem sucesso, mas no segundo para alegria daquele homem, mais um filho se tornava um universitário. Era meados da década de setenta. Por se tratar de filho dos mais novos, outros já haviam conseguido o mesmo. Cinco anos depois C2 era um jovem diplomado. E agora? Foi à luta. Quando de sua faculdade mal existia calculadora, e as poucas que existiam, não era permitido o uso em sala de aula, muito menos nos testes. E C2 cursava na área de exatas onde a matemática imperava.

Numa de suas aulas, presenciou uma das maravilhas da época, o telex um aparelho sem memória, usava um fita de papel que ao digitar era perfurada e depois transmitida a partir de um leitor de relevo. Bem se tinha o telegrafo o correio e o telefone, mas para poucos.

No seu trabalho conheceu o primeiro computador, não trabalhava nele, mas conheceu. Tal qual o telex não possuía memória, era usado na expedição de mercadorias. E muitos dados ficavam armazenados na fita, o que economizava muita digitação. Lembrando que ao errar começava tudo de novo, não como hoje, que corrige, tira e põem palavras, não fora assim, já estaria na vigésima digitação ou bater a maquina.  O primeiro computador que C2 trabalhou não tinha monitor era ligado a uma TV e sem HD o sistema era carregado em fita K7 e os raros programas também.

Telefonia somente fixa e precária, temos agora a telefonia móvel, só quem viveu antes para ver a incomensurável facilidade.

Bom, novamente o tempo passou C2 constituiu família, mudou pouco de moradia, trabalhou muito, perdeu irmãos e pais, que saudade. Mas nem tudo são flores, algumas coisas mudaram para pior, o conceito de moral e honestidade são outros, totalmente diferentes, o ser humano é mais violento e menos temente a Deus.

Como falei no inicio, agricultura de sobrevivência, mas e hoje? Hoje se chama agro negocio sustentáculo do PIB dado mais importante da atualidade. Não são mais roceiros ou caipiras. São produtores com tecnologia avançada, se assim não fora como seria? Vejam bem; um município com x de área para sustentar vinte mil habitantes, agora precisa sustentar duzentos mil com a mesma área. A quem devemos isso! Aos gênios, apesar dos medíocres sempre atrapalhando. Depois da torre de Babel o ser humano jamais se contentou com aquilo que tem ou faz razão maior do vertiginoso desenvolvimento da humanidade. Produtores rurais, quem são? Engenheiros agrônomos, dentistas, médicos, economistas etc. sem nenhum constrangimento sobem em maquinas para produzir alimentos, pois sem os mesmos, tudo deixa de existir.

C2 esta neste grupo, cursou curso superior, mas voltou as suas origens, embora numa pequena escala produz alimento. Não tem nenhum constrangimento de subir em uma maquina e trabalhar. Em plena segunda década do século vinte e um.

Um conto de Neftali Rodrigues dos Reis. Engenheiro civil; Educador, Aposentado.

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