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A Vida e as
Obras
O Pensamento: A Gnosiologia
Filosofia de Aristóteles
A
Vida
e as Obras
Este grande filósofo grego, filho de Nicômaco, médico de
Amintas, rei da Macedônia, nasceu em Estagira, colônia grega da Trácia,
no litoral setentrional do mar Egeu, em 384 a.C. Aos dezoito anos,
em 367, foi para Atenas e ingressou na academia platônica, onde
ficou por vinte anos, até à morte do Mestre. Nesse período
estudou também os filósofos pré-platônicos, que lhe foram úteis
na construção do seu grande sistema.
Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia,
como preceptor do Príncipe Alexandre, então jovem de treze anos. Aí
ficou três anos, até à famosa expedição asiática, conseguindo
um êxito na sua missão educativo-política, que Platão não
conseguiu, por certo, em Siracusa. De volta a Atenas, em 335, treze
anos depois da morte de Platão, Aristóteles fundava, perto do
templo de Apolo Lício, a sua escola. Daí o nome de Liceu
dado à sua escola, também chamada peripatética
devido ao costume de dar lições, em amena palestra, passeando nos
umbrosos caminhos do ginásio de Apolo.
Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e
gloriosa academia platônica. Morto Alexandre em 323, desfez-se
politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os
desejos de independência, estourando uma reação nacional,
chefiada por Demóstenes. Aristóteles, malvisto pelos atenienses,
foi acusado de ateísmo. Preveniu ele a condenação, retirando-se
voluntariamente para Eubéia, Aristóteles faleceu, após
enfermidade, no ano seguinte, no verão de 322. Tinha pouco mais de
60 anos de idade. A respeito do caráter
de Aristóteles, inteiramente recolhido na elaboração crítica do
seu sistema filosófico, sem se deixar distrair por motivos práticos
ou sentimentais, temos naturalmente muito menos a revelar do que em
torno do caráter de Platão, em que, ao contrário, os motivos políticos,
éticos, estéticos e místicos tiveram grande influência. Do
diferente caráter dos dois filósofos, dependem também as
vicissitudes exteriores das duas vidas, mais uniforme e linear a de
Aristóteles, variada e romanesca a de Platão. Aristóteles foi
essencialmente um homem de cultura, de estudo, de pesquisas, de
pensamento, que se foi isolando da vida prática, social e política,
para se dedicar à investigação científica. A atividade literária
de Aristóteles foi vasta e intensa, como a sua cultura e seu gênio
universal. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente
Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o
trabalho próprio, fruto de muita observação e de profundas meditações.
Escreveu sobre todas as ciências, constituindo algumas desde os
primeiros fundamentos, organizando outras em corpo coerente de
doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável
inteligência. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que
constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência,
agudeza de penetração, vigor de raciocínio, poder admirável de síntese,
faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição
histórica e universalidade de conhecimentos científicos. O grande
estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções.
Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam,
poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". A
primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico
de Rodes pela metade do último século a.C.
substancialmente autêntica, salvo uns apócrifos e umas interpolações.
Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo
seguinte, tendo presente a edição de Andronico de Rodes.
I. Escritos
lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon
mais tarde, não por Aristóteles. O nome, entretanto, corresponde
muito bem à intenção do autor, que considerava a lógica
instrumento da ciência.
II. Escritos
sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a
antropologia, e pertencentes à filosofia teorética, juntamente com
a metafísica.
III. Escritos
metafísicos: a Metafísica famosa, em catorze
livros. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles
mediante seus apontamentos manuscritos, referentes à metafísica
geral e à teologia. O nome de metafísica
é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico, que a
colocou depois da física.
IV. Escritos
morais e políticos: a Ética
a Nicômaco, em dez livros, provavelmente publicada por
Nicômaco, seu filho, ao qual é dedicada; a Ética
a Eudemo, inacabada, refazimento da ética de Aristóteles,
devido a Eudemo; a Grande Ética,
compêndio das duas precedentes, em especial da segunda; a Política,
em oito livros, incompleta.
V. Escritos
retóricos e poéticos: a Retórica,
em três livros; a Poética, em
dois livros, que, no seu estado atual, é apenas uma parte da obra
de Aristóteles. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos
restam - manifestam um grande rigor científico, sem enfeites míticos
ou poéticos, exposição e expressão breve e aguda, clara e
ordenada, perfeição maravilhosa da terminologia filosófica, de
que foi ele o criador.
O
Pensamento:
A Gnosiologia
Segundo Aristóteles, a filosofia
é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do
universo, em face do qual a atitude inicial do espírito é o
assombro do mistério. O seu problema fundamental é o problema do
ser, não o problema da vida. O objeto próprio da filosofia, em que
está a solução do seu problema, são as essências imutáveis e a
razão última das coisas, isto é, o universal e o necessário, as
formas e suas relações. Entretanto, as formas são imanentes na
experiência, nos indivíduos, de que constituem a essência. A
filosofia aristotélica é, portanto, conceptual como a de Platão
mas parte da experiência; é dedutiva, mas o ponto de partida da
dedução é tirado - mediante o intelecto da experiência. A
filosofia, pois, segundo Aristóteles, dividir-se-ia em teorética,
prática e poética,
abrangendo, destarte, todo o saber humano, racional. A teorética,
por sua vez, divide-se em física,
matemática e filosofia
primeira (metafísica e teologia); a filosofia prática
divide-se em ética e
política; a poética em estética
e técnica. Aristóteles é o
criador da lógica, como ciência
especial, sobre a base socrático-platônica; é denominada por ele analítica
e representa a metodologia científica. Trata Aristóteles os
problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos
que tomaram mais tarde o nome de Órganon.
Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica
de Aristóteles, porque aí está a sua gnosiologia.
Foi dito que, em geral, a ciência, a filosofia - conforme Aristóteles,
bem como segundo Platão - tem como objeto o universal e o necessário;
pois não pode haver ciência em torno do individual e do
contingente, conhecidos sensivelmente. Sob o ponto de vista metafísico,
o objeto da ciência aristotélica é a forma,
como idéia era o objeto da ciência platônica. A ciência platônica
e aristotélica são, portanto, ambas objetivas, realistas: tudo que
se pode aprender precede a sensação e é independente dela. No
sentido estrito, a filosofia aristotélica é dedução
do particular pelo universal, explicação do condicionado mediante
a condição, porquanto o primeiro elemento depende do segundo. Também
aqui se segue a ordem da realidade, onde o fenômeno particular
depende da lei universal e o efeito da causa. Objeto essencial da lógica
aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal,
que corresponde a uma derivação real. A lógica aristotélica,
portanto, bem como a platônica, é essencialmente dedutiva,
demonstrativa, apodíctica. O seu processo característico, clássico,
é o silogismo. Os elementos primeiros, os princípios supremos, as
verdades evidentes, consoante Platão, são fruto de uma visão
imediata, intuição intelectual, em relação com a sua doutrina do
contato imediato da alma com as idéias - reminiscência. Segundo
Aristóteles, entretanto, de cujo sistema é banida toda forma de
inatismo, também os elementos primeiros do conhecimento - conceito
e juízos - devem ser, de um modo e de outro, tirados da experiência,
da representação sensível, cuja verdade imediata ele defende,
porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. O erro começa de
uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação, como o
conceito, é sempre verdadeira. Por certo, metafisicamente,
ontologicamente, o universal, o necessário, o inteligível, é
anterior ao particular, ao contigente, ao sensível: mas,
gnosiologicamente, psicologicamente existe primeiro o particular, o
contigente, o sensível, que constituem precisamente o objeto próprio
do nosso conhecimento sensível, que é o nosso primeiro
conhecimento. Assim sendo, compreende-se que Aristóteles, ao lado e
em conseqüência da doutrina de dedução, seja constrangido a
elaborar, na lógica, uma doutrina da indução. Por certo, ela não
está efetivamente acabada, mas pode-se integrar logicamente segundo
o espírito profundo da sua filosofia. Quanto aos elementos
primeiros do conhecimento racional, a saber, os conceitos, a coisa
parece simples: a indução nada
mais é que a abstração do conceito, do inteligível, da
representação sensível, isto é, a "desindividualização"
do universal do particular, em que o universal é imanente. A formação
do conceito é, a posteriori,
tirada da experiência. Quanto ao juízo, entretanto, em que
unicamente temos ou não temos a verdade, e que é o elemento
constitutivo da ciência, a coisa parece mais complicada. Como é
que se formam os princípios da demonstração, os juízos
imediatamente evidentes, donde temos a ciência? Aristóteles
reconhece que é impossível uma indução completa, isto é, uma
resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder
tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências.
Então só resta possível uma indução incompleta, mas certíssima,
no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados
da experiência, a posteriori,
seu nexo, porém, é a priori,
analítico, colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a
sua evidência, necessidade objetiva.
Filosofia
de Aristóteles
Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo
dos conceitos, mas abandonando a solução do mestre, Aristóteles
constrói um sistema inteiramente original. Os caracteres desta
grande síntese são:
1. Observação
fiel da natureza -
Platão, idealista, rejeitara a experiência como fonte de
conhecimento certo. Aristóteles, mais positivo, toma sempre o fato
como ponto de partida de suas teorias, buscando na realidade um
apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas.
2. Rigor
no método -
Depois de estudas as leis do pensamento, o processo dedutivo e
indutivo aplica-os, com rara habilidade, em todas as suas obras,
substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão, em estilo
lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão
admirável. Pode considerar-se como o autor da metodologia e
tecnologia científicas. Geralmente, no estudo de uma questão,
Aristóteles procede por partes: a)
começa a definir-lhe o objeto; b)
passa a enumerar-lhes as soluções
históricas; c) propõe
depois as dúvidas; d) indica,
em seguida, a própria solução; e)
refuta, por último, as sentenças contrárias.
3. Unidade
do conjunto -
Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema,
uma verdadeira síntese. Todas
as partes se compõem, se
correspondem, se confirmam.
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