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O Método
de Hume
A Análise da Idéia de Causa
O Ceticismo de Hume
Hume e o Problema da Religião
David
Hume
David Hume nasceu na Escócia, em
Edimburgo em 1711. Hume pertencia a uma família abastada. Fez bons
estudos no colégio de Edimburgo - um dos melhores da Escócia, em
seguida transformado em universidade -, cujo professor de
"filosofia", isto é, de física e ciências naturais,
Stewart, era um cientista discípulo de Newton. O jovem Hume, que
sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre, rapidamente
renuncia aos estudos jurídicos e comerciais, passa alguns anos na
França, notadamente em La Flèche, onde compõe, aos vinte e três
anos, seu Tratado da
Natureza Humana, editado em Londres,
em 1739. A obra, diz-nos o autor, "já nasceu morta para a
imprensa". Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros
curtos, brilhantes, acessíveis ao público mundano. Seus Ensaios
Morais e Políticos (1742) conhecem
vivo sucesso. Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a
filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios
Filosóficos sobre o Entendimento Humano
(1748), cujo título definitivo surgirá em edição seguinte
(1758): Investigação
(Inquiry) sobre o Entendimento Humano.
A obra obtém sucesso, mas não deixa de inquietar os cristãos, e
Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de
Glasgow. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. De
1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no
mundo dos filósofos. Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra,
indispondo-se com ele em seguida. Em 1768, ele é Secretário de
Estado em Londres. Nesse meio tempo, publicou uma Investigação
sobre os Princípios Morais (1751),
uma volumosa História
da Inglaterra (1754-1759) e uma História
Natural da Religião (1757). Somente
após sua morte (1776) é que foram publicados, em 1779, seus Diálogos
sobre a Religião Natural.
O
Método de Hume
Hume quis ser o Newton da psicologia. O
subtítulo de seu Tratado
da Natureza Humana é, nesse sentido,
bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método
de raciocínio experimental nas ciências morais. A análise psicológica
do entendimento operada por Hume parece, à primeira vista, muito próxima
da de Locke.
Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são
ópias das nossas "impressões", isto é, dos dados empíricos:
impressões de sensação, mas, também, impressões de reflexão
(emoções e paixões). Não é este o ponto de vista tradicional do
empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber?
Na realidade, o método de Hume pode ser
apresentado de maneira mais moderna. Sua filosofia coloca, sob o
nome de "impressões", aquilo que Bergson mais tarde
denominará os dados imediatos da consciência e que os
fenomenologistas denominarão a
intuição originária ou o vivido.
Ao falar de fenomenologia contemporânea, Gaton Berger escrevia:
"É preciso ir dos conceitos vazios, pelos quais uma idéia é
apenas visada, à intuição direta e concreta da idéia, exatamente
como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões".
Para Hume, ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual
é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras.
Fala-se de substância, de princípios, de causas e efeitos etc. Que
existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso?
As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras?
Aquilo que Hume chama de impressão e que ele caracteriza pelos
termos "vividness",
"liveliness"
é o pensamento atual, vivo, que se precisa redescobrir sob as
palavras (no empirismo de Hume, diz Laporte, há que ver "antes
o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo").
A
Análise da Idéia de Causa
Aos olhos de Hume, a noção de
causalidade é muito enigmática porque, em nome desse princípio de
causalidade, a todo momento afirmamos mais do que vemos, não
cessamos de ultrapassar a experiência imediata. Por exemplo, em
nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os
mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição),
afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver; prevejo a
ebulição dessa água, portanto, tiro "de um objeto uma
conclusão que o ultrapassa". Todo raciocínio experimental,
pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver, a
barra de metal vai se dilatar, amanhã fará dia etc.), repousa
nesse princípio de causalidade.
De onde me vem esse princípio? A qual
impressão corresponde essa idéia? A "investigação"
filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as
direções:
"Nós devemos proceder como essas
pessoas que, ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando
não o encontram no lugar que esperavam, vasculham todos os lugares
vizinhos sem visão nem propósitos determinados, na esperança de
que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas
buscas". Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica.
Hume não encontrará, em nenhum setor da
experiência, uma impressão concreta de causalidade que torne legítima
essa idéia de causa que pretendemos ter:
a)
Consideremos, de início, a experiência externa: vejo que o
movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra
bola com que a primeira se chocou, assim como vejo que o aquecimento
é seguido da ebulição: vejo, então, que o fenômeno A
é seguido do fenômeno B.
Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. É certo que posso
repetir a experiência e que, cada vez em que a repito, o fenômeno B
se segue ao fenômeno A.
Mas isto não esclarece nada. A repetição constante de um enigma não
é o mesmo que sua solução. Vejo bem que, entre os fenômenos A
e B,
há uma conjunção
constante, mas não vejo conexão
necessária. Constato que
A se mostra e que, depois, B
aparece. Mas não constato que B
aparece porque A se
mostra. A experiência externa apenas me fornece o e
depois, não me dá a origem do porquê.
b)
Examinemos agora essa experiência, simultaneamente interna e
externa, que faço a todo momento em que sinto o poder da minha
consciência sobre meu corpo. Não terei aqui a chave do princípio
de causalidade. Se quero levantar o braço, levanto-o. Não é
evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo?
Mas, se refletirmos bem, essa experiência não é menos clara do
que a precedente. Constato duas coisas: inicialmente, que quero
levantar o braço, em seguida, que ele se levanta. Não sei
absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se
opera o movimento de meu braço. Um paralítico, como eu, quer
levantar o braço e, para surpresa sua, constata que nenhum
movimento se segue ao seu desejo.
E eu, cuja língua ou cujos dedos se movem
segundo minha vontade, não tenho o menor poder sobre meu coração
ou sobre meu fígado. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e
de meus movimentos espantava Malebranche
a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a
partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. Aos olhos de
Hume, filósofo do século XVIII, essa hipótese é extravagante,
mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês.
Ainda aqui, constato com surpresa que quero efetuar certos
movimentos e depois
que esses movimentos se realizam.
Mas não constato o porquê,
não tenho experiência de uma conexão necessária.
Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se
tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os
planetas, esse poder não seria mais extraordinário".
c)
Quer dizer enfim da experiência puramente interior
da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir
que minha reflexão atenta é causa das idéias que
me ocorrem? Mas, de saída, segundo os casos ou os
momentos, as idéias ocorrem ou não. Pela manhã,
elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e
melhor antes da refeição do que após. Ainda aqui
constato a existência de uma sucessão entre meu
esforço de atenção e minhas idéias, mas não vejo
conexão necessária entre os dois fatos.
Por conseguinte, a conclusão se impõe. Não
existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. O que acontece
é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença,
partindo do hábito e da associação das idéias. Por que será que
espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque, responde
Hume, aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha
experiência e essa associação determinou um hábito em mim.
Coloco a água no fogo e afirmo, em virtude de poderoso hábito: vai
ferver. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os
casos passados de que tive experiência", é porque a imaginação,
irresistivelmente arrastada pelo peso do costume, resvala de um
evento dado àquele que comumente o acompanha. Aparento antecipar a
experiência quando, na verdade, cedo a uma tendência criada pelo hábito.
Por conseguinte, a necessidade causal não existe realmente nas
coisas. "A
necessidade é algo que existe no espírito, não nos objetos."
O
Ceticismo de Hume
O empirismo de Hume surge então como um
ceticismo; explicar psicologicamente a crença no princípio de
causalidade é recusar todo valor a esse princípio. De fato, não
existe, na idéia de causalidade, senão o peso do meu hábito e da
minha expectativa. Espero
invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. Mas essa
expectativa não tem fundamento racional. Em suma, poderia ocorrer -
sem contradição - que essa água aquecida se transformasse em
gelo! "Qualquer
coisa, diz Hume, pode produzir qualquer coisa."
No domínio das proposições lógicas, A
não pode ser não-A.
Mas nas "matters
of fact", tudo pode acontecer.
Aquele rei de Sião, que condenara à morte o embaixador norueguês
em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu
país, no inverno, os rios se tornavam tão duros que se podia fazer
deslizar trenós sobre os mesmos!!), errara muito ao negar um fato
contrário à sua experiência. O princípio de causalidade,
inteiramente explicado por uma ilusão psicológica, não tem o
menor valor de verdade. Pascal, que já esboçara essa análise
psicológica da indução, dizia em fórmula surpreendente: "Quem
reduz o costume a seu princípio, anula-o".
O ceticismo de Hume, portanto, surge-nos,
dirá Hegel
mais tarde, como um ceticismo absoluto. Para Hegel, ao ceticismo
antigo, que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão
do espírito ao mundo das verdades eternas, opõe-se um ceticismo
moderno - de que Hume seria o corifeu - que nega apenas as afirmações
da metafísica e fundamenta, solidamente, as verdades da ciência
experimental. Na realidade, o
ceticismo de Hume, ao abolir o princípio de causalidade, lança a
suspeita em toda ciência experimental.
Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da
imaginação e do hábito. Até a unidade do eu - que se nos
apresenta ingenuamente como uma evidência - é ilusória para ele.
Segundo Hume, é também a imaginação que identifica o eu com o
que ele possui ou, como dizemos, o ser e o ter. Em última instância,
eu tenho reputação e mesmo lembranças, idéias e sonhos do mesmo
modo que tenho esta roupa ou esta casa. É simplesmente a imaginação,
hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas, que
facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito
da personalidade, coleção de haveres heteróclitos que é dado
como um ser. Pois, ou eu sou meus "estados" e minhas
"qualidades" e não sou eu mesmo, ou então sou eu mesmo e
nada mais.
Só que Hume é o primeiro a reconhecer
que seu ceticismo, por mais absoluto que seja, é artificial. Hume,
como todo mundo, quando coloca a água no fogo, está persuadido de
que ela vai ferver. Quando reflete como filósofo, em seu gabinete,
ele é cético. Quando mergulha na vida corrente, suas "conclusões
filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao
nascer do dia". Se, diz ele curiosamente, "após três ou
quatro horas de diversão, eu quisesse retornar às minhas especulações,
estas me pareceriam tão frias, tão forçadas e ridículas que não
poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". A
crença no princípio de causalidade, absurda no plano da reflexão,
é natural, instintiva. A teoria de Hume, por conseguinte, é
simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo.
Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios
do saber, mas segundo os níveis do pensamento. Ninguém mais do que
ele separou filosofia e vida. Ele filosofa ceticamente segundo uma
reflexão rigorosa e dissolvente. Podemos então qualificar, de
certo modo, como "humorístico" o ceticismo desse filósofo
inglês que, por outro lado, ousou dizer que convinha a um
cavalheiro pensar como os whigs...
e votar como os tories.
Hume
e o Problema da Religião
Essa complexidade da filosofia de Hume
torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa.
Consideremos, por exemplo, o célebre Ensaio
Sobre os Milagres. Ele parece ter
sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é
impossível porque contraria a experiência, as leis da natureza. Em
compensação, a crença popular nos milagres - perfeitamente explicável
pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens - é
muito natural!
"A velhacaria e a idiotice humanas são
fenômenos tão correntes, que eu antes acreditaria que os
acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso, ao invés
de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza".
Em suma, Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a
realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar
sua ilusão tenaz. Mas
como Hume pode apoiar-se no determinismo, uma vez que sua crítica
da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica?
Pascal, fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de
Hume para afirmar a possibilidade do milagre. Ressuscitar, dizia, não
é mais misterioso do que nascer. "O costume torna um fácil,
sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar"
Quando Hume rejeita o milagre, não estará pensando ao nível da
imaginação e do costume, não estará julgando
"popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então
no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio
do costume e do bom-senso indutivo.
Os Diálogos
sobre a Religião Natural são difíceis
de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos, em que cada
personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios; o próprio
Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste
em só colocar absurdos na boca dos adversários". Os três
personagens são: um deísta racionalista, Cleanto, que demonstra a
existência de Deus partindo das maravilhas do universo; Demea, místico
anti-racionalista, e o cético Filon. Ao fim da obra, Hume afirma
que está mais próximo de Cleanto. Mas, numa carta de 1751 a
Gilbert Elliot of Minto, ele declara que, no momento da redação de
seus Diálogos, o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo
quando se trata de demolir o racionalismo, o antropomorfismo e o
otimismo de Cleanto. Enquanto muitos filósofos do século das luzes
reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram
na ordem do mundo, na finalidade, argumentos para a religião
natural, tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas
"céticas" à religião natural. A noção de um
Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e
os males de que os homens são vítimas neste mundo. Por outro lado,
observa Hume sutilmente, se a verdade do sofrimento humano é, para
o filósofo, um argumento decisivo contra a Providência, é
precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações
da religião. O mesmo
fato, que para o filósofo é uma objeção maior à religião,
surge, no povo, como a forca essencial da crença!
Finalmente, a crítica da razão teológica tem, portanto, em Hume,
o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. Em ambos os
casos, ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico - que se
apresenta impossível - pela pesquisa de origem psicológica da crença.
O ceticismo de Hume é um psicologismo.
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